Economia & Política

por Juvenal Melvino, professor e pesquisador, grupo GASEA, UNEMAT

‘ÚNICA SAÍDA PARA O GOVERNO É CORTAR GASTOS’

fazer um comentário »

DELFIM NETO, em entrevista ao G1, a Camila Guimarães, em São Paulo, dá sua receita para o crescimento. E diz que pacote econômico está fora de moda. Nas paredes de seu escritório, no bairro nobre do Pacaembu, em São Paulo, o economista Antônio Delfim Netto mantém uma coleção de charges publicadas pela imprensa brasileira. Todas sobre ele, que ainda se diverte ao apontar suas preferidas. Aos 78 anos e dono de um humor peculiar, o “superministro” do regime militar, responsável pelo milagre econômico dos anos 70, se tornou ainda mais polêmico ao se aproximar do PT e do presidente Lula. “Eles se aproximaram muito mais de mim do que eu deles”, afirmou. Delfim desconversa quando perguntado se irá assumir algum cargo público no segundo mandato, mas é bem direto na hora de defender Lula e criticar as fraquezas da política econômica. “Não existe nada mais fora de moda do que anunciar pacote econômico”, disse ele. “Acho que o presidente tem a clareza de que o país precisa mesmo é de um programa transparente”. Delfim recebeu o G1 para falar do baixo crescimento do país em 2006, de perspectivas para 2007 e do governo Lula.

G1 – Como o senhor avalia o desempenho da economia em 2006?
Delfim Netto – O ano terminou de forma um pouco triste. O Brasil podia crescer mais do que 3%. Há algum tempo previu-se que poderíamos, com uma taxa de inflação a 4,5%, crescer 4%. Era uma projeção razoável. Mas, enquanto tivemos um resultado brilhante na taxa de inflação, virar o ano com avanço do PIB a menos de 3% é um resultado terrível.

G1 – Se era razoável esperar um crescimento de 4%, por que não deu certo?
Delfim Netto – Há muitos fatores que explicam o baixo crescimento, mas certamente o país começou a ceder quando se deu início ao processo de aumento da taxa de juros no início do ano, que barrou os investimentos. Naquele momento, o país rodava a 5% (ao ano) e o BC acreditou que isso poderia ser um sinal de alta na inflação. Então, subiu os juros para contê-la. Ou seja, o BC acertou na mosca: errou na ida e na volta.

G1 – Mas teria sido melhor assumir o risco da volta da inflação alta?
Delfim Netto – Não dá para saber se de fato a inflação iria subir se os juros tivessem sido mantidos naquele patamar. Ninguém consegue medir exatamente em que momento a inflação vai começar a subir. A inflação é um processo aleatório. Basta olhar o que aconteceu antes e depois da eleição de Lula em 2002, quando tivemos picos de alta da taxa. Ninguém até hoje sabe explicar. Era por que o Lula estava assumindo o governo ou por que Fernando Henrique Cardoso estava de saída? O efeito das decisões do BC é muito mais poderoso sobre o crescimento do país e sobre a taxa de câmbio do que sobre a inflação. Quando há crescimento porque alguém está investindo e, de repente, os juros sobem, o que na verdade está se dizendo a este investidor? Que ele é um tolo. O Copom domina um mecanismo que tem implicações muito sérias.

G1 – Quais são os outros fatores que atrapalharam o avanço da economia?
Delfim Netto – A carga tributária é uma das principais razões de o ambiente de negócios do Brasil ser um dos piores do mundo – em qualquer ranking internacional nós não aparecemos bem cotados. Só um país anestesiado permitiria um aumento da carga tributária de 26% a 38% sem piar. E com apoio da mídia especializada, sob palmas. O que anestesiou o país foi a estabilidade da inflação. Quando você compara o Plano Real com outros planos de estabilização, como os do México, Israel ou Argentina, ela dá um banho. Mas, no quesito crescimento, foi o pior de todos. Até o México, que teve um plano mixuruca, cresceu mais. Os empresários brasileiros têm duas desvantagens de mercado: a taxa real de juros maior do mundo e valorização da moeda em relação ao dólar maior do mundo. Todas as moedas cresceram com o dólar fraco, mas a média da valorização é de 17%. Não discuto que o real tenha de ser forte, mas só ele valorizou 37%. Isso penaliza o empresário.

G1 – O governo Lula vai conseguir melhorar isso? Como?
Delfim Netto – A única saída é cortar gastos. Nos últimos anos, as despesas do governo cresceram 6% ao ano, enquanto o PIB cresceu a 2,4%. Não é preciso ser físico quântico para saber que do mesmo jeito que Plutão deixou de ser planeta nós vamos deixar de ser país. Eu tenho esperança que o governo irá conseguir, sim, até por que está numa armadilha. Ele não pode mais aumentar imposto. Ele sabe disso porque aconteceu um fato extremamente curioso, há cerca de um ano e meio, quando foi editada a Medida Provisória 232, que aumentava os impostos para trabalhadores autônomos e profissionais liberais. Eu já tinha visto a Praça dos Três Poderes em Brasília lotada de membros do MST, de tratores, caminhões. Mas aquela foi a primeira vez que paulistas engravatados vieram protestar de braços dados. O governo recuou na hora, não quis nem renegociar a proposta. O Brasil não aceita mais aumento de imposto. Além disso, todo mundo também já sabe que a dívida pública não pode ser maior que 56% do PIB.

G1 – Essas questões estão abordadas no pacote a ser anunciado?
Delfim Netto – Vejo que o presidente tem clareza disso, mas não tem nada tão mais fora de moda do que pacote econômico. Na minha opinião, o governo deveria apresentar um programa.O Brasil aprendeu uma lição depois de sete pacotes de estabilização fracassados. Tudo que foi feito escondido e depois apresentado de supetão fracassou. O Plano Real teve esse mérito: tudo foi explicitado, desde a criação da URV. Todo mundo sabia qual seria o passo seguinte. E eu acho que existe a possibilidade de Lula fazer isso. Ele tem uma intuição muito grande, acho que ele sabe que seu destino foi de uma bondade imensa. Ele pode sair do segundo mandato como estadista ou pode voltar para São Bernardo como um líder sindical que apenas conseguiu chegar lá, mas não mudou nada.

G1 – Como aconteceu a aproximação entre vocês?
Delfim Netto – O PT se aproximou muito mais de mim do que eu deles. Sempre tive muita admiração por Lula. Nos conhecemos por volta de 1978, quando o governo tentou montar um pacto com os trabalhadores. Sempre tivemos uma relação respeitosa e simpática. Depois nos encontramos no Congresso, na Constituinte. Minha adesão total ao Lula veio em 2002, com a Carta aos Brasileiros. Eu acreditei nela por que, ali, Lula superou aquela ideologiazinha rasteira e apresentou ao país um programa importantíssimo, que bateu com meu pensamento, antigo, de que falta uma hipótese no pensamento econômico: a urna. É por causa da urna que faz sentido colocar o combate à fome como prioridade. Vou dar um exemplo: por volta de 1985, o mundo estava encantado com a estabilização monetária da Bolívia. O Banco Mundial publicou dezenas de livros sobre a política econômica deles. O FMI, dezenas de estudos. Parecia que o país, que aparentemente não tinha mais salvação, se transformaria numa potência da América Latina. O plano econômico boliviano, de fato, era perfeito, só esqueceu de uma coisa: os índios. Foi um fracasso. Essa é a grande vantagem de Lula e não adianta ficar brigando contra, dizer que o projeto dele é assistencialista. O Lula sente o pobre. Nós, quando falamos de pobre, somos um pouco cínicos. O resultado é que a distância entre as pessoas, na distribuição de renda, diminuiu pela primeira vez.

G1 – O senhor foi convidade para assumir algum cargo do governo?
Delfim Netto – A sua pergunta é de uma inconveniência terrível. É como perguntar se eu vou à Lua. Como, se não tenho foguete?

G1 – Quais são seus planos para 2007?
Delfim Netto – Eu me formei em 1952 e desde então faço estrago. Estou a mais de 40 anos nos corredores de Brasília. Acho que fiz tudo o que podia fazer, tomei as decisões que tomei da melhor forma possível. Quando decidimos alguma coisa, levamos em conta o conhecimento que temos acumulado até aquele momento. O futuro é opaco. Um economista só vira um gênio depois que o futuro virar passado.

Escrito por Juvenal Melvino

25/12/2006 às 21:46

Publicado em Economia

Deixe uma resposta