Dimensões do Desenvolvimento: do Global para o Local
No início deste século, o debate sobre o desenvolvimento local tem sido ampliado, buscando integrar as dimensões sociais, econômicas, ecológicas e culturais. Até então, este debate que estava restrito ao meio político, econômico e acadêmico, passa a incorporar as camadas populares da sociedade. Nos fóruns de discussão, o principal questionamento que se faz é: por que algumas regiões e localidades conseguem se desenvolver mais que outras, no campo econômico, social, ecológico, respeitando suas diferenças culturais? É possível promover o desenvolvimento levando em consideração a totalidade destas dimensões?
As elites da sociedade capitalista sempre vincularam ao conceito de desenvolvimento um modelo, como o inglês, por seu papel protagonista da revolução industrial, e mais recentemente, o americano, por sua condição hegemônica pós-segunda guerra mundial. Promovendo estes modelos para o conjunto das sociedades, sem respeitar as diferenças culturais de seus povos. Entretanto, na atualidade, o debate sobre o desenvolvimento e suas dimensões tem-se manifestado de forma imbricada. Ou seja, o desenvolvimento não pode ser pensado levando em consideração somente uma das suas dimensões.
A revolução industrial, o estabelecimento do modo de produção capitalista, em seus primórdios, conduziu o desenvolvimento das sociedades, levando em consideração somente a dimensão econômica. A produção da mais valia absoluta implicava no aumento da jornada de trabalho para além das 8 horas/diárias, o que era insuportável para a condição humana. Mulheres e crianças trabalhavam em fábricas insalubres. Nessa época, a expectativa de vida das pessoas beirava os quarenta anos de idade.
O desenrolar das grandes navegações e a descoberta de novos mundos impulsionaram o comércio internacional. Este fenômeno, caracterizado por trocas comerciais desiguais entre metrópoles e colônias, iniciou o processo de globalização da economia mundial. Os supostos teóricos da divisão internacional do trabalho e das vantagens absolutas e comparativas do comércio internacional desenharam o mapa do mundo de forma desequilibrada e assimétrica entre regiões e países. O desenvolvimento capitalista estabelecia diferenças entre os países centrais (desenvolvidos) e os países periféricos (subdesenvolvidos). Segundo este establishment, os países centrais deveriam produzir e comercializar produtos manufaturados, já os periféricos produzir e comercializar produtos primários.
Esta assimetria entre regiões e países, bem como, a conseqüente desigualdade social, suscitam a intolerância cultural, racial e religiosa, os conflitos sociais, e as guerras entre povos e nações. A equação destas diferenças passa a ser a grande questão de estudo e reflexão do mundo pós-moderno. Como equacionar estas diferenças? Como promover equilíbrio diante dos desequilíbrios regionais e locais? Como engendrar simetria ante a assimetria entre povos e nações?
No século passado, organizações internacionais como a ONU, FMI, Banco Mundial, OMC, etc. foram criadas para mitigar as assimetrias e desigualdades entre povos e nações. Entretanto, estas organizações trilham caminhos ambivalentes, a despeito dos excelentes estudos que tratam as realidades regionais e locais das nações. Há dicotomia na orientação destas organizações. O financiamento das economias subdesenvolvidas e em desenvolvimento era condicionado à aceitação do receituário econômico liberal, que na maioria dos casos, não se ajustava a realidade destas nações. Modelos de desenvolvimento impostos de fora para dentro não levavam em conta a dimensão cultural destas nações. Portanto, em vez de mitigar as desigualdades, o fosso entre estas nações e o mundo desenvolvido era ampliado.
No mundo atual, o conceito de desenvolvimento passa a incorporar valores e identidades étnicas, sociais e culturais do território local. As formas de organização e reorganização social passam a ser re-pensadas, levando em conta os modos distintos de percepção, ordenamento, re-ordenamento, das relações destes povos com o meio. O desenvolvimento do território local é pensado de dentro para fora. As sociedades locais apoderam-se da gestão política e, concebem o controle social dos recursos ambientais. O homem econômico não interessa sem o viés social. Pensar o desenvolvimento regional é pensar o local. Os atores sociais e econômicos locais ganham voz e voto no planejamento das cidades e de regiões, dentro e fora do país. Comunidades excluídas do capital, como indígenas e quilombolas, passam a ser ouvidas e respeitadas por organismos do Estado. A cidadania adquire uma dimensão global.
Neste início de século, projetos e planos de desenvolvimento econômico, fomentado por governos, têm buscado a participação dos atores locais. Convém citar o Plano da BR-163 Sustentável e o Plano Amazônia Sustentável. Estas iniciativas de desenvolvimento, regional e local, têm se pautado por audiências públicas locais, interagindo com os atores da localidade, construindo assim, projetos e planos de desenvolvimento que respeitam os valores dos seus povos.
Pode-se concluir desta exposição, que a sociedade civil organizada e o Estado experimentam uma nova relação de poder, uma nova abordagem de desenvolvimento. Os poderes dos territórios locais passam a ser respeitados pelos poderes do Estado nacional, estadual e municipal. O desenvolvimento passa a compreender a totalidade das dimensões étnicas, culturais, sociais, econômicas e ecológicas.